Dunga solta “bombas” em conversa descontraída com Milton Neves
Milton Neves e Dunga, além de 15 jogadores e outras 400 pessoas, foram convidados para o casamento de Robinho no Guarujá-SP.
Único jornalista presente nos salões do Casa Grande Hotel, MN e o técnico da seleção brasileira ficaram na mesa número 4 da festa e conversaram longamente ao lado de suas respectivas esposas e de Kaká e Caroline.
Aliás, a foto ao lado mostra o exato momento em que Dunga se regozijava com Kaká pelo fato de o presidente Lula estar, naquela quinta-feira, presenteando líderes mundiais, como Barack Obama, com camisas da seleção.
“Tá vendo, Kaká, hoje ele distribui nossas camisas, mas outro dia, pelo que ele andou falando, ele deveria distribuir camisas da Argentina, que ele tanto elogiou, quando eles ganharam da gente”, desdenhou.
MN: Muitos técnicos e jornalistas acham que o ideal seria acompanhar o jogo das tribunas, para enxergar melhor o que acontece no campo. O que você acha?
Dunga: Quem pensa assim é quase um imbecil e coisa de gente que nunca calçou chuteira e que nunca cantou o hino nacional no gramado. Todo técnico tem que ficar do lado do gramado para acompanhar de muito perto o estado psicológico de cada atleta. É preciso sentir lado a lado o rosto, a expressão e o suor dos jogadores. Dependendo do que eu sentir olhando ali de pertinho, eu posso trocar um jogador até no início da partida. E lá de cima não dá para sentir nada.
MN: Gilberto Silva sempre diz que eu fui o responsável pela convocação dele para a Copa de 2002. Enchi a bola dele mesmo. O Gilberto jogava no Galo. Hoje, ele é o jogador mais contestado da seleção.
Dunga: Milton, depois que o Gilberto foi para a Grécia, o Arsenal se tornou um timeco. Respondi? E ele sempre fala bem de você e não se esquece da sua ajuda. Ele é meu titular e da posição dele eu entendo um pouquinho.
MN: O Robinho está se casando, e você fez questão de estar presente. Ele é o seu homem de confiança?
Dunga: Sempre que convoquei o Robinho, ele apareceu sorrindo, alegre, motivando a todos. Não fica triste nunca. E está sempre ligado no jogo.
MN: Quando você assumiu, o Rogério Ceni era o mais cotado para assumir o gol da seleção. Mas você preferiu o Júlio César.
Dunga: Pois é, só pediam o Rogério. Mas, hoje, o Júlio é uma unanimidade. Ou não é?
MN: E o Fábio, do Cruzeiro, que pegou tudo contra o Estudiantes?
Dunga: Ele precisa resolver uma certa dor nas costas, mas é um grande goleiro e foi sensacional na quarta-feira (contra o Estudiantes).
MN: Por que você se irrita tanto durante as entrevistas coletivas? Aliás, você tem falado cada vez menos…
Dunga: O nível da crônica esportiva caiu demais. Nunca vi jornalistas perguntando tão mal.
MN: Ao contrário de outros treinadores da seleção, você não dá privilégios à TV Globo.
Dunga: Verdade. Tanto que o Galvão Bueno já ligou para mim reclamando sem razão de veto meu à participação de jogadores nos programas dele. Mas, pô, o programa era a uma da madrugada no país em que estávamos! Disse que reclamasse ao Ricardo Teixeira. Aliás, Milton, os repórteres da Globo chegaram atrasados em quatro coletivas minhas logo cedo. Eu não repito coletiva.
MN: Você os respeita?
Dunga: O (Marcos) Uchôa e o Tino (Marcos), sem dúvida.
MN: Por que você aceitou o desafio de assumir a seleção?
Dunga: Milton, eu não precisava dar certo na seleção para mim, eu assumi para dar certo para o bem do futebol brasileiro. E faço questão de dizer: ‘eu dei certo’, ao contrário de meu crítico contumaz, o Falcão. Aliás, para descobrir a primeira vitória dele na seleção, eu precisei consultar a Internet. E você está me dizendo que ele me criticou pela entrada do Daniel Alves no lugar do André Santos (contra a África do Sul), não é? Pois você precisa ver como ele me detona no “Zero Hora”. E depois dizem que nós, gaúchos, somos corporativistas.
MN: Com relação aos críticos, algo a dizer?
Dunga: Os que me detonavam ontem me adulam hoje. Não tenho raiva deles. Mas dou risada quando me elogiam, só que dispenso esses elogios oportunistas e não temo críticos. Mas fico preocupado quando eles começam a me elogiar.
MN: O Luxemburgo e o Muricy, os “favoritos” para assumir a seleção no lugar do Dunga, estão desempregados…
Dunga: Verdade. Diga isso ao Renato Maurício Prado. O engraçado é que ele e um outro lá de São Paulo bancaram com convicção a minha demissão. E como isso não aconteceu, em nenhum momento demonstraram a mesma convicção no desmentido. Florearam e enrolaram. Até hoje não pediram desculpas pela enorme bola fora.
E TEM MAIS…
O bate-papo que tive com Dunga durante o casamento de Robinho, na quinta-feira, no Guarujá-SP, não foi uma entrevista, mas uma conversa entre um técnico e um jornalista em encontro casual até pela mesa a nós destinada. Sou jornalista o tempo todo, a notícia nunca tem hora.
Dunga é um sujeito sério, corajoso e aberto e se abriu, como eu, também com umas duas ou três taças de puríssimo champagne.
O champagne encanta e liberta e “contou para mim eu conto mesmo”! E ele contou mais… Acompanhe.
Ricardo Teixeira
“Sou o único técnico da história da CBF que de três em três meses envia relatórios à direção justificando cada decisão que tomei. Ricardo Teixeira tem sido muito leal comigo e minha retribuição é proporcional.”
Scolari
“O Felipão é bom demais e acho que Portugal não irá aguentar ficar sem ele.”
Andrea Pirlo
“O Pirlo acabou. Já votei muito nele nestas pesquisas que sempre chegam, mas hoje ele não marca, ataca ou lidera. Joga com o nome.”
Afonso
“Convoquei o Afonso porque naquela época todos os centroavantes estavam impedidos ou lesionados. E isso ninguém fala.”
Imperador
“O Adriano é fantástico, em forma, e não pipoca ou reclama nunca. Leva porrada, levanta e vai para o jogo. Responde ao beque jogando.”
Ronaldo de 94
“Em 94, a Nike encheu a mim, Romário, Bebeto e outros de sacolas, bolsas, bolas, uniformes, camisas, chuteiras e tênis, aos montes. Ao Ronaldo, reserva, só deram 1 tênis e 1 chuteira. Aí, o Romário falou ao chefão da Nike: “Se o menino não receber a mesma quantidade, devolvo tudo ou jogo fora.” Na hora, Ronaldo recebeu o que Romário ordenou.”
Ronaldo de 2009
“O Ronaldo de hoje? Tô tão feliz quanto ele com seus gols. Ele é grande e aguardemos.”
Azedume alheio
“Acho gozado ex-jogador-jornalista xingando o futebol, que o futebol está uma porcaria. Então por que não vão cobrir escrever e falar de vôlei, basquete e natação? E hoje, como jornalistas, ganham mais do que quando jogavam e só veem lados ruins do seu ganha-pão.”
Convite para assumir a seleção
“O Ricardo Teixeira me convidou para a seleção pelo telefone e eu estava almoçando com a minha mulher e três filhos. Atendi, ouvi, desliguei e disse que tinha sido convidado para ser técnico da seleção e meu filho de 20 anos deu uma risada “com a piada”. No outro dia, saiu na TV e ele me ligou reclamando: ‘Pai e você não me conta’? Ué, contei, mas ontem você não acreditou…
Que Fim Levou?
“Não, não vi você na TV ‘exigindo’ Madson na seleção, mas gosto do seu ‘Antes e Depois’. Só você e o Bosco (excelente João Bosco, jornalista gaúcho) tem tanto carinho com o jogador de ontem. Precisamos de uma entidade, ONG, sei lá, para cuidar de centenas deles. E fala lá na TV do hino no gramado e dos que nunca calçaram uma chuteira e ficam ditando regra.”
Joel Santana
“Na semifinal, armaram para que eu o abraçasse na hora do hino! Você acha que isso pode? Na hora do hino não quero saber de mais nada, só do meu país e do meu time e o Joel era um africano para mim.”
Confiança
“Jogador meu tem que driblar. Falo: ‘Drible, drible o máximo que puder se der errado a culpa é minha, se der certo o mérito é teu’.”
Influência dos canais a cabo
“A TV fechada tem sim audiência menor ou pequena, mas pauta vocês da aberta e vocês dos jornais porque vocês se acompanham e depois a coisa vira verdade.”
Obviedades
E o comentarista dizendo que a seleção tem que jogar de forma inteligente? Não é óbvio? Mas que inteligente é esse? É do jeito que o cara quer? O Helena? O Falcão?”
Mazinho
“O Mazinho, na Fiorentina? É, lembro aquele seu amigo da rádio falando que eu o abandonei contundido… Vê só; o cara sai da Toscana e vai se operar em Milão a 400 quilômetros e me queria de babá porque ainda não falava italiano? Eu tinha mais é que treinar e isso de babá era com o agente dele que levava 10% de tudo que ele ganhava e não comigo.”
Ícones ‘brasilianos’
“Os brasileiros mais falados na Itália antes dessa geração de Adriano e Kaká? Dino Sani e Chinesinho!”
Dura na imprensa
“Comentarista-professor de TV tem que ver treino, senão irá sempre se assustar com um gol como aquele do Daniel Alves, ‘o lateral que deixou o time torto’, como disseram (Nesse momento, Dunga fala em tom de desdém). E tem o PVC, educado, que se desculpou duas vezes pessoalmente depois de críticas públicas. Está errado: tudo tem que ser público ou tudo privado. Ou não tô certo?”
O Pai do Gol
“Na Copa de 2002, acertei com a Bandeirantes, Rádio e TV, e logo recebi ofertas de três e duas vezes mais para mudar. Disse: ‘Não assinei nada, mas não aceito suas ofertas, minha palavra dada fale muito mais do que contrato’. O Luciano do Valle sabe disso. E que locutor aquele Silvério…”
Milton Neves
“Foi você o primeiro a me encher o saco ao vivo três vezes com esse negócio de ser técnico (a esposa do Dunga, nessa hora balançou a cabeça três ou quatro vezes afirmativamente, concordando, ‘grata’) E sempre achei isso loucura, mas hoje tô adorando.”
Maior tristeza
“Meu pai estava jogando bola comigo de tão bem de saúde, feliz da vida e no outro dia ele se apagou mentalmente. O Alzheimer dele foi de pronto, de repente, total e não gradual como quase todos os casos. Pobre da minha mãe faz mais de 10 anos… Mas, calado e muitas vezes distante, sofro mais do que ela, a melhor mulher do mundo.”
São Marcos
“O Marcos homem é tudo isso mesmo? Kaká: ‘Dunga, o Marcos é mais alegre do que o Robinho’ (o xodó do treinador).”
Beckenbauer
E o Beckenbauer não falou na TV e escreveu lá no jornal que a Seleção Brasileira não tinha ataque ? Aí fomos campeões e ele deve ter ficado com cara de tacho depois da Copa das Confederações.
Fidelidade
Faltando um ano para a Copa e ninguém está fora ou garantido, mas quem ralou comigo por três anos tem meu reconhecimento. Na podre o cara tá comigo e na boa vou dar o cano nele?
Raiva
Por que jornalista acha que é obrigação falar mal da seleção ? A gente joga mal, perde ou empata é porque nosso time é horroroso e o adversário muito melhor. Aí a gente ganha e eles dizem que o adversário não presta. Ganhamos de grandíssimas seleções e ouvi que Argentina, Portugal e Itália estavam cansados e desmotivados.
É isso gente. Para fechar, outras rápidas pinceladas. No papo, senti que ele pensa em Diego para a Copa e que não tem ainda o lateral pela esquerda. Nem dois e nem um.
Depois do bate-papo, Dunga foi dançar com a esposa ao ritmo do “Exalta Samba”, Macarena e dos “cantores” Robinho e Júlio Baptista.
Eu, às duas da manhã, fui dormir, mas anotei tudo em rascunho de papel do hotel, acordei às seis e fui para Campos do Jordão com minha esposa.
Boa sorte ao Dunga!
Enviado por: Milton Neves - Categoria(s): Bastidores, Polêmicas, Seleção Tags relacionadas: Dunga, Galvão Bueno, Gilberto Silva, Kaká, Milton Neves, Ricardo Teixeira, Robinho, Seleção







